sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Dia Nacional dos Emirados

Pois é brasileiros e brasileiras, o Quatro de Julho emirati também tem festa! Ontem dia 2 de Dezembro, um marco na história desta terra, foi comemorado o dia da unificação das sete tribos para formação dos Emirados Árabes Unidos sob a iniciativa do Sheik Zayed Bin Sultan Al Nahyan. Mas as festividades não param por aí. O calendário local segue até dia 11 de Dezembro e inclui entre shows, revoada de ultraleves, passeatas de barcopelo Creek (rio ao redor do quala cidade se desenvolveu), de carro e a pé lideradas pelo Sheik Mohamed em pessoa e pirotecnia, também a isenção de cobrança pelo estacionamento nas vias públicas por uma semana. No aeroporto a decoração com as bandeiras em branco preto vermelho e verde, cores dos Emirados Árabes Unidos, ficou muito bonita. Onde quer que você vá, terá de passar sob arcos feitos de balões das mesmas cores, ornamentados com fitas e plumas coloridas e fotos dos Sheiks.


Até a polícia de Dubai está em clima de festa. Aqui eles são conhecidos como super nacio- nalistas, cada um deles ostenta pelo menos uma foto do Sheik no verso do crachá ou em forma de bottom na lapela, agora então aproveitando a ocasião especial eles colocam ao redor do pescoço uma espécie de cachecol com as cores nacionais e as fotos dos Sheiks de Dubai e Abudabi nas pontas. Como o protocolo não permite que os policiais sejam fotografados eu não pude documentar, porém um deles foi designado para fazer às vezes de anfitrião no saguão do aeroporto e servir café árabe com tâmaras no lounge de embarque então pude flagrar este momento, posando para foto ao lado do oficial vestido na tradicional candura (roupa branca árabe).


A minha motoca também entrou na festa, como já é vermelha decorei com uma bandeirinha dos Emirados que combinou bem. Os emiratis adoram desfilar seus carros, na maioria SUV's (Sport Ultility Vehicles) ou aqueles trambolhos que circulam também la no Brasil que mal cabem nas ruas. A variedade de decoração é impressionante teve gente que pichou o próprio carro com tinta spray. Não estou falando de Fusquinha velho ou Chevette, o povo aqui picha Mitsubishi Pajero, Toyota Prado, Hummer, Land Hover e Mercedes. Fotos do Sheik é que não faltam.


O trânsito durante as festas foi motivo de polêmica. A colocação destas fotos até no pára-brisa dianteiro levou a polícia de Dubai a apreender em um mesmo dia 300 veículos que tinham a visibilidade do motorista comprometida pela decoração, placa ocultada, dirigiam perigosamente, realizavam carreatas não autorizadas obstruindo o tráfego. A notícia em inglês está no Gulf News. A legislação de tráfego aqui também prevê sistema de pontos na carteira e as multas para estas infrações variam de R$100,00 a R$ 1.000,00.

A postagem sobre a novela da carteira de motorista vai ficar pra próxima, novamente. Assim é possível informar mais detalhes para quem tem buscado neste site algumas dicas de sobrevivência nesta AMAZING! City.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Como é a vida em Dubai?

A campeã entre as perguntas que recebi tem sido esta ate agora, e confesso ser a mais difícil de responder. Quando alguém me questiona a respeito à resposta mais imediata é: Mais que vida? ("Iiii... pronto, o Fred andou lendo Nietsche." Não queridos leitores, faz anos que não leio Nietsche – Nem faço questão de voltar a ler.) A explicação é que Dubai tem uma cultura motorizada, avessa à cultura pedestre brasileira. Sem um veículo é difícil ter uma vida nesta cidade, principalmente trabalhando em turnos variáveis onde o planejamento da sua vida pessoal demanda uma flexibilidade que não é correspondida pelo serviço municipal de transportes.

A Road And Transports Authority ou RTA como é conhecida regula e administra os transportes públicos e privados nos Emirados. (Sem entrar no mérito da definição do que é publico ou o que é privado por aqui, o que constitui tema para uma nova postagem.) Como uma versão local do DETRAN ela é responsável pelos ônibus, linhas, pontos, planejamento de vias públicas, regulamentação de tráfego, licenciamento de empresas, veículos e a famigerada carteira de motorista.

Devido à expansão acelerada, Dubai enfrenta o desafio de prover serviços de qualidade nos transportes. Nos horários de pico, principalmente nas regiões centrais a escassez de taxis é evidente levando o cidadão esperar de uma a uma hora e meia por um táxi. Pegar um taxi na rua é quase impossível, logo que o táxi fica vago uma chamada entra e o cliente avulso é recusado à beira da calçada. Inúmeras vezes nos deparamos com a tradicional cena do taxista desembarcando passageiros e quando abrimos a porta pra falar com ele a resposta é que está atendendo a uma chamada.

Já a fila de espera nos call centers é de aproximadamente meia hora dependendo do horário que se liga. Nota-se também conduta irregular, penalizada com multa pela RTA, por parte dos motoristas que escolhem as chamadas e destinos de acordo com o lucro ou conveniência de voltarem para casa.

A estratégia adotada por aqui é: 1- Entre no taxi, sente-se e feche a porta 2- Declare o destino somente com o taxi em movimento, se o taxista perguntar olhe pra ele e diga "_Go!" 3-Se o taxista reclamar diga que vai chamar a polícia. (Vixe eles morrem de medo!). Desta maneira consegue-se circular em Dubai. Creio que isto ocorre devido à influência cultural de certas regiões do Sul da Ásia, onde a hierarquia e a servidão são parte dos costumes. É impressionante a associação de respeito com poder. Sad but true, como diria James Hetfield. Se não falar grosso não tem respeito por aqui.

O ponto positivo é que fora dos horários de pico isso é menos suscetível de acontecer, muito ao contrário, os condutores imploram pela corrida na madrugada. Outros detalhes a favor do sistema de táxis local são o preço muito mais barato que o Brasil (22 reais para o aeroporto- mais 10 reais se sair do aeroporto), a qualidade material dos veículos Toyota Corolla ou Honda Civic 2007 a 2008, a limpeza apresentação dos veículos com motoristas uniformizados e serviços especiais como o pink taxi que é para senhoras e senhoritas e dirigido por mulheres.

Por outro lado, se você pode arcar somente com o custo do coletivo então se prepare. Este mesmo fator cultural mencionado antes e observado também nos passageiros do Sul da Ásia influencia o comportamento da população que utiliza e que opera os coletivos. São trabalhadores social e economicamente carentes na sua maioria que utilizam o serviço para ir trabalhar nos horários de pico ou passear e resolver questões pessoais fora destes. A regra por aqui diz que ônibus não pode sair lotado e é cumprida a risca. No momento que o coletivo encosta na calçada os passageiros aglomeram-se junto à porta na expectativa de conseguir um lugar. Nos horários de pico a disputa fica mais acirrada mas sem os sopapos que normalmente ocorrem no Brasil, embora a o contato físico seja inevitável à medida que os trabalhadores apertam-se uns aos outros junto à porta.

Permitam-me uma pequena observação. Nota-se uma incrível semelhança no momento do embarque destes mesmos passageiros para seus países de origem. Fazemos um anúncio no portão, todos se levantam num estrondo único e correm (mas correm mesmo!) para a porta de embarque. Lembro-me de quando era criança e lá no parque da Aclimação e dava comida aos peixes, logo que caía a primeira migalha eles avançavam sobre o pão. Identicamente acontece no check-in. Acreditem-me! Não há fila sem grito! Os viajantes amontoam suas malas de mão junto a um canto do balcão mesmo sem conhecerem-se e aglomeram-se sobre o balcão e empurrando os carrinhos de bagagem uns contra os outros vão se espalhando lateralmente. No momento em que chegamos para abrir o vôo a bagunça (ou organização peculiar a este tipo de passageiro) já está formada. Para organizar só no grito. Liiiiiiine! (leia-se Láine =fila em inglês).

A freqüência dos ônibus é irregular, embora pela regra seja planejada. Atrasos de até meia hora são constantes e muitas vezes nestes casos o ônibus atrasado não para, pois já cumpriu lotação. Apesar da propaganda ostensiva da RTA sobre os pontos de ônibus com ar condicionado, estes são poucos geralmente nas regiões centrais e nas áreas mais ricas da cidade. Nem todas as localidades são servidas com transporte coletivo e também são poucas que têm calçadas para circulação de pedestres. Os fatores positivos são os ônibus aqui são novinhos em folha, sanfonados, grandes e quando lotados não são lata de sardinha. O ar condicionado dos coletivos também é excelente.

As vias e estradas deste emirado são largas espaçosas. Encontram-se aqui highways de até oito pistas de cada lado, estas são como um carpete até o destino final. A velocidade limite de muitas é 120 km por hora, um paraíso para os expatriados de origem européia e para os emiratis. Muitos dirigem seus Porshes e Ferraris a velocidades alucinantes acima dos 200 km por hora, resultando em acidentes tolos devido às imprudências. Live fast, die Young .

Há também radares por todos os lados embora o policiamento de trânsito se faça presente somente no momento de acidentes, ou em alguns pontos com a caneta e bloco na mão. A distribuição do tráfego já começa a evidenciar a necessidade de uma redistribuição. Existe limitação de acesso entre o tráfego local e as highways criando gargalos de tráfego nos pontos de acesso a estas vias expressas. Por aqui muitas vezes pode-se ver o lugar para onde está indo, mas não há via direta, tem-se que dar muitas voltas até descobrir como chegar até lá.

Os canteiros de obras públicas e privadas são outro fator que complica o trafego de Dubai, muitas reduções de pista, areia e cascalho no asfalto e sinalização improvisada incorretamente pelos próprios trabalhadores das construções (aqueles mesmos da aglomeração citada acima) colaboram na lentidão da circulação dos veículos.

Quanto à carteira de motorista (Passei no exame ontem!) é um processo lento, complicado que será o assunto da próxima postagem. Reservei as mais cômicas observações sobre a cultura administrativa do departamento de trânsito para a próxima ocasião.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Mês do Ramadã

Como prometido aqui vão as impressões sobre o Ramadan.

Antes de tudo, permitam-me corrigir as informações da postagem anterior.Em Dubai nada fecha no período do nascer ao pôr do sol, o que fecham são alguns restaurantes e as praças de alimentação dos shoppings, embora a maioria permaneça aberta e receba encomendas para viajem. Comer em publico beber qualquer coisa inclusive água e fumar é proibido.Os seguranças do shopping vigiam e pedem que você leve o conteúdo para a sua casa e consuma lá. Todos respeitam sem exceções, mas notei que alguns árabes muçulmanos fumam dentro de seus carros quando em tese ninguém está vendo.

A razão do jejum no Ramadã é solidarizar com os necessitados e desenvolver a autodisciplina priorizando as coisas do espírito sobre as coisas do corpo. O fasting, como é chamado em inglês aqui, ocorre do nascer ao pôr do sol e é quebrado com um desjejum chamado Iftar que corresponde à ceia cristã do Natal, só que todos os dias, durante o ramadã, no horário astronômico do pôr do sol. A festa é alegre e os funcionários aqui do aeroporto reúnem-se nas mesas de Iftar da praça de alimentação após a oração do por do sol (Salatul Magrib). O prato é comida árabe principalmente. Falarei da gastronomia em outra ocasião.

Neste mês pede-se moderar as atitudes em frente aos muçulmanos e não comer e beber em frente aos colegas que estão jejuando aqui na empresa. Estes cumprem um expediente reduzido de 6 horas e recebem hora extra quando se estendem em seus deveres. Fui convidado para a Iftar inúmeras vezes o que é uma honra para não muçulmanos, porém não posso aceitar por questões éticas. Sou registrado como cristão dentro da empresa, e preferi evitar comentários sobre direitos trabalhistas (suspeitas sobre utilizar a religião como pretexto para receber hora-extra).

O movimento aqui no aeroporto diminuiu muito no período. Somente vôos para Jeddah, próxima a Mecca, que costumam estar cheios devido à peregrinação neste período. Diz o Al Quram (Alcorão- essa tradução em português não fez sentido pra mim quando cheguei) que as peregrinações à Mecca no período do Ramadã multiplicam as bênçãos dos peregrinos. Estas viagens são chamadas de Umra e os viajantes vestem-se somente com panos brancos em volta de si.

Em Jeddah (Arábia Saudita) há um esquema aeroportuário montado onde os passageiros do Umra são desembarcados em um terminal exclusivo e todas as bagagens que seguem para este destino tem uma etiqueta especial escrito Umra. No retorno os fieis trazem galões de Zam-zam, a água da fonte que Abraão fez jorrar do deserto, que dizem ser abençoada. Normalmente trazem como excesso de bagagem a uma média de 25reais por kg/l de água. Meus colegas do departamento de bagagem contam várias histórias de brigas no desembarque por causa da troca de galões ou extravio da Zam-zam. O que normalmente ocorre com passageiros que chegam atrasados nos vôos.

O cumprimento durante o Ramadã é Ramadan Kareem ou Ramadan Mubarak que corresponde ao Feliz Natal. A vantagem dos muçulmanos é que eles têm 30 ceias de "Natal" por ano e nós só temos uma. Lembrei-me dos 5 quilos que ganhei no último Natal. Nossa! Ainda bem que não fui! 5 x 30 são 150 quilos!

sábado, 30 de agosto de 2008

A Cultura Local - De quem?

Cultura local é um item delicado de se falar neste país, não pela definição de cultura em si e sim pela definição de "local" segundo os que vivem aqui. O que é um "local" nos Emirados Árabes?

As leis de naturalização aqui não são como as brasileiras. Conheci muitos nativos de Dubai que não são locais, aplicando-se o conceito dos Emirados. Mostaffah por exemplo é iraniano, nascido em Dubai há vinte anos, mas herdou a nacionalidade de seus pais. Said meu chefe é paquistanês, mas também nasceu aqui. Quem vem ao mundo neste país pode ser paquistanês, indiano, queniano, saudita, menos emirati (cidadão dos Emirados). A cidadania aqui é consangüínea.

Este mês tive a oportunidade de conhecer mais de perto a cultura muçulmana, além de vários episódios que observei no aeroporto também fui algumas vezes a uma mesquita orar com os irmãos. É muito bonito o senso de religiosidade desta gente. O muçulmano ajoelha-se e ora com a testa colada ao chão em sinal de humildade, todos se dedicam de acordo com suas disponibilidades a alguma atividade espiritual na comunidade. Neste contacto inicial tive conhecimento somente de atividades de oração e orientação espiritual. Alguns dedicam seu tempo a orientar os demais e costumam reservar alguns meses, na medida do possível para este retiro, onde participam de atividades nas mesquitas e pernoitam lá por meses para dividir um pouco de seu esclarecimento sobre a fé islâmica com os demais.

Conheci um irmão de Bangladesh e por coincidência tenho coordenado o vôo de sua companhia aérea nacional algumas vezes, a Biman Airlines, ou o Tigre de Bengala como eles se autodenominam nesta empresa. Através deste contacto com os bangladeshianos ou bengalis, percebi a carência material deste povo. O vôo é um 747-300 meio surrado, com 542 acentos de classe econômica exclusivamente e cujo interior inspira dó. Triste mesmo são as bagagens que muitas vezes têm coladas as fotos dos passageiros, pelo fato de serem analfabetos. Iletrados, porém organizados, embora não saibam escrever o próprio nome sabem da necessidade de identificar propriamente suas bagagens e o fazem sem exceção.

Espiritualmente este povo não deixa a desejar. Este irmão está morando lá na mesquita de Sharjah por um período de quatro meses se não me engano. Embora não seja proficiente em inglês soube sintetizar a essência de sua fé com simplicidade. Sempre me lembrarei do doce conselho que recebi: "Allah mostrará o caminho no seu coração seja qual for a sua religião". Qual foi a surpresa dos meus colegas que têm tentado converter este pobre infiel que lhes escreve e espanto dos que rotulam os islâmicos.

Estamos às vésperas do Ramadã, mês sagrado para os maometanos, que jejuam durante o dia. Apesar dos protestos dos expatriados de Dubai, tudo estará fechado do nascer ao pôr do sol. Na próxima postagem informarei sobre este evento com mais detalhes.