quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Natal no Aeroporto Internacional de Dubai

Feliz Natal a todos! Que a paz que Jesus nos deixou como Seu exemplo contagie o n osso ambiente de convívio para que num futuro próximo possamos desfrutar dos benefícios da fraternidade na Terra.


Este é mais um dos vários natais já passados nos aeroportos do mundo afora. Ossos do ofício! Bem dizia mamãe:_Vá fazer direito! Preste um concurso público! Tudo bem, prestei pra Controlador de Vôo, passei e o Lula apesar do apagão aéreo, nunca chamou. Mas confesso que a carreira pública não me atrai.

O noite começou bem, cheguei ao aeroporto adiantado na minha motocicleta, com a rotineira indumentária de motociclista: Jaqueta de couro e capacete (de outro modo acabo carregando o deserto de Dubai dentro dos bolsos do meu blazer). Desci, troquei-me e fui bater o ponto, pura rotina.

Ao chegar a notícia prevista, vinda da Jumana minha Duty Officer da Síria:_Mr Farid (esse sou eu, pros árabes) os supervisores cristãos ligaram informando que estão doentes e não virão, preciso da sua ajuda.

Lá vamos nós, Jet Airways pra Delhi, load tranqüilo mas o vôo é um porre. O perfil do cliente é dos que vê pêlo em ovo. Muito exigente (ok), pouco informado e mal criado na maioria (aff!). Típico "noveau riche" das nossas culturas terceiro-mundistas. Ocorreu sem maiores percalços. Durante o check-in chamou-me a atenção um médico que pediu assistência de cadeira de rodas para sua mãe já idosa. Doutor Singh. Ainda não entendo se há uma razão para todos os indianos que conheci que são naturais de Punjab chamarem-se Singh, só sei que são identificados pelo turbante tipo Indiana Jones no Templo da Perdição. Ficou muito contente pela atenção dada ao seu familiar, marcou -me pelo seu sorriso franco.


Um deportado nepalês, cash inad (termo dado aos que são recusados por não ter fundos suficientes para entrar no país) embarcou por último conforme o procedimento, acompanhado de cinco deportados vindos do Detention Centre de Dubai. Esses ou são imigrantes ilegais ou estão sendo deportados após o cumprimento de pena. O 737-800 chegou atrasado com 90% da capacidade prevista, porém nosso time despachou o vôo com 15 minutos de antecedência do horário regular, partindo adiantado. (Viu Gol! Rsrs).

Como de costume nas situações de falta de funcionários após este já tinha outro me esperando. Mas como a alocação foi muito apertada, não foi possível chegar ao check-in a tempo para o próximo vôo da Azerbaijan Airlines para Baku, então fui encaminhado para o vôo da Daallo Airlines para o Djibuti na África, que recebe na maioria passageiros para o Djibuti, Somália, Etiópia e Eritréia.

Fui até o escritório da empresa para receber o brieffing da gerência, enquanto isto notei que o corredor dos escritórios tinha um toque natalino. Vi guirlandas nos escritórios da Srilankan e da Cathay Pacific (fotos ao lado).

Aproveitei e tirei uma foto com o pessoal da Srilankan (primeira foto), que antes tinha a Emirates como acionista. O pessoal desta empresa é muito simpático e a equipe tem um serviço excelente, um dos melhores do aeroporto.

A gerente Sherine é uma simpatia e ela mesma
decorou o escritório e montou a árvore de natal. Esse foi o único escritório que eu encontrei que estava em clima natalino, pois entre os funcionários há budistas e cristãos. Os budistas no Srilanka também comemoram o natal, para entrar no clima da festa somente, sem intenção religiosa.

O escritório da Daallo é uma coisa curiosa, na porta há um enorme banner com uma moça em trajes típicos djibutianos segurando um carneirinho na mão, tão bonitinho. Diz-se aqui no aeroporto que ela segura o carneiro porque está pronta para embarcar, aguardando na fila do check-in, hahaha, que maldade! Mas quem já viu embarque da Daallo sabe por quê. Foi neste vôo que descobri que o computador só suporta 999 quilos de bagagem e que as balanças só toleram 400 quilos.
Brieffing tomado, lá vamos nós. A fila não estava grande, o vôo ainda tinha alguns assentos disponíveis e partia às três horas da manhã.


Meia noite ligou-me a Ana Karina, minha amiga famosa do blog Ah! Libanesa. Fiquei feliz de receber seus votos de feliz natal. Normalmente não atendo ao celular durante a operação nem autorizo minha equipe a fazê-lo, mas natal é natal, alguns dos funcionários filipinos eram cristãos, também tinham família no exterior e estavam heroicamente dedicando seu feriado natalino aos passageiros de um vôo que sabidamente não se leva bagagens com menos de trezentos quilos (foto Abaixo: Pulat funcionário Uzbeque e as bagagens do passageiro Daallo).

Ninguém merece né! Vamos dar um desconto!


Logo em seguida ligou-me a mãe da Clarissa, tripulante da Emirates trazendo os votos da minha amiga Sale de Caxias do Sul também.

Isto alegrou a minha noite natalina principalmente pelo fato de alguém lembrar que nós abrimos mão de nossas noites de natal para que os passageiros possam estar com suas famílias.



A maior preocupação desse vôo sempre é o carregamento, pois mesmo com assentos disponíveis a bagagem é sempre maior que o aparelho comporta e acaba sendo enviado em vôos posteriores. O pequeno Boeing 727-200, voando desde a década de sessenta, tem um porão limitado e para carregá-lo o pessoal da rampa tem que entrar lá dentro pois só dispõe de uma porta na traseira da aeronave.


O mesmo se dá quando se precisa remover as bagagens dos passageiros que não se apresentam na última hora.


Excepcionalmente hoje a meteorologia previu uma neblina densa com possível fechamento da pista depois das três horas. E rotineiramente o Daallo nunca sai no horário pois não é possível desembarcar as toneladas de malas dos passageiros que chegam depois do fechamento do portão à tempo de partir no horário.Mais fácil então é esperar que o mesmo se apresente, ai então o folgado acaba atrasando o vôo inteiro.

De qualquer forma mala sem passageiro não sai no meu vôo de jeito algum! Versa a segurança da aviação que bagagem desacompanhada é bomba à bordo.


O pessoal desta parte da África não tem o costume de usar relógio mesmo. Já estava vendo o tamanho do desafio, botar esta turma no vôo e fazê-lo partir adiantado então pedi aos funcionários que avisassem a todos que o vôo sairia antes do horário.


O embarque começou duas horas e duas e trinta vejam só, todos à bordo! E a aeronave estava na remota! (posição de estacionamento que demanda levar os passageiros de ônibus).


Terminado o carregamento e fechadas as portas a aeronave dirigiu-se para a pista às duas e cinquenta e cinco e graças a Deus decolou! Às três em ponto desceu a neblina e o Dubai International fechou até pra pernilongo. Não dava pra ver um palmo na frente do nariz.


Voltando ao fim da operação, com a sensação de deve cumprido gravei o breve vídeo abaixo na minha tosca câmera do celular.

Quem é que disse que não existe milagre no natal, hahaha! Quem conhece este vôo que o diga!

video

domingo, 14 de dezembro de 2008

Liberdade de Dirigir (A Saga da Carteira de Motorista Parte I)




Como prometido, contarei a aventura de se tirar carteira de motorista nos UAE.

Tudo começou no dia em que um colega brasileiro, menos esclarecido resolveu arrumar briga com o transporte da empresa. O iluminado cidadão, se achando um europeu de estirpe superior, discutiu com o motorista da van que nos transporta para o trabalho. Como de praxe nos barraqueiros da nossa nacionalidade, o patrício estava errado. Mesmo assim ele ofendeu o motorista, e etilizado o ameaçou. O pobre "golimar" (apelido carinhoso que nós brasucas atribuímos aos nativos do sul da Ásia) abaixou a orelha e obedeceu, mas estava o colega enganado se isto ficaria assim. O corporativismo golimar aqui pega pesado. Eles pegaram tamanho ranço dos funcionários do Grupo Emirates, e principalmente dos brasileiros (Porque aqui tudo se credita à nacionalidade do cidadão, "_Ah! Tem joanete? Talvez porque seja Marroquino!". "_Crise de soluço? Só podia ser chinês!") que começaram a retaliar. No outro dia viam-se vários funcionários correndo atrás da van enquanto a mesma fechava as portas antes da hora e saia acelerando à velocidade do som.

Eu mesmo corri umas poucas vezes, e sem alternativa, apelei pro serviço clandestino. Sim caros leitores, Dubai também tem lotação. As minhas despesas acabaram encarecendo e então resolvi partir pro "independência ou morte" mais cedo do que o planejado, e para minha sorte porque nem sabia o que estava por vir.

Lá vou eu para o balcão do shopping, onde vários driving centers competem pelos novos alunos, levantar informações sobre a conversão da carteira de motorista brasileira para o documento local. Descobri que não é possível, somente cidadãos de poucos países podem fazê-lo. Como era de se esperar, USA, Inglaterra e outros desta lista:

  • Australia
  • Austria
  • Bahrain
  • Belgium
  • Canada*
  • Cyprus*
  • Czech Republic*
  • Denmark
  • Finland
  • France
  • Germany
  • Greece*
  • Iceland
  • Ireland
  • Italy
  • Japan*
  • South Korea*
  • Kuwait
  • Luxembourg
  • Netherlands
  • New Zealand
  • Norway
  • Oman
  • Poland*
  • Portugal*
  • Qatar
  • Saudi Arabia
  • Singapore
  • Slovakia*
  • South Africa
  • Spain
  • Sweden
  • Switzerland
  • Turkey*
  • United Kingdom
  • United States

Nota: Se tiver carteira de motorista de um destes países, porém não tiver passaporte de lá você não terá a carteira reconhecida. O que importa não é a sua habilidade de dirigir e sim o status que a sua nacionalidade lhe atribui. Confira no link http://www.dubaifaqs.com/driving-licence-exchange-UAE.php. Se segundo o DataSUS o número de acidentes de trânsito fatais no Brasil em 2005 foi de 35.100 comparado aos 43.442 dos Estados Unidos no mesmo ano. Então porque eu reles terceiro mundista devo passar por todo este sufoco enquanto o Tio Sam bota uma graninha na mão dos habibs e sai cantando os pneus do seu Corvette?

Optei pela motocicleta por várias razões, uma delas é o número menor de aulas (16 contra 40 dos automóveis) então descobri que as aulas de moto ao em um pátio especial e que os driving centers só tem em suas matrizes. Isto me obrigou a optar por um driving center perto de casa. Este ai da foto. A questão é que eu vivo em um distrito industrial onde além dos armazéns e indústrias ficam os labour camps e company acomodations (os primeiros para trabalhadores da indústria e construção, os segundos para os do turismo aviação e serviços). Onde é que eu fui amarrar meu camelo!

Oito horas da manhã e mal abriu o estabelecimento a fila já ta enorme, aquela galera vestindo sharwanis (túnica típica do Paquistão) ou turbantes e (desculpem-me se parecer preconceito, mas o meu olfato não mente) uma tremenda catinga. Olha, depois desta fila eu pago pra entrar nas da prefeitura de SP ou do SUS sem reclamar. Dizem que a memória olfativa é a mais marcante, pois a minha remeteu-me à única fila com semelhante odor que eu já presenciei, a fila do sopão FEESP no centro de São Paulo. Ao abrirem as portas retirei uma senha e sentei-me. Número 180, aí pensei "_O teste de paciência vai ser dos grandes". Ao ser chamado após duas horas de espera entreguei passaporte, cópia do visto, identidade funcional e me matriculei. "_É só isso?" Perguntei. Uma jovem senhorita em uma abaia preta me respondeu que ainda não e pediu-me para tirar uma nova senha para o caixa. Lá vou eu de novo apertar o botãozinho. Número 125 desta vez, para dois guichês e o aroma apertando. Mais uma hora pra pagar e nova pergunta: "_É só isso?" "_Não" Respondeu-me um homem de turbante. Faltava ainda marcar as aulas. "_Tem fila? Perguntei. "_Não" Respondeu-me, e logo completou, "_O próximoo!"La vou eu feliz achando que poderia voltar pra casa quando constatei que não tinha fila mesmo. Na verdade era uma aglomeração, melhor se fosse fila. Saí de lá com as 16 aulas marcadas às 4 da tarde. Pra pegar o expediente aeroportuário as 6. Ninguém merece!

Aula numero 1. O instrutor, com uma farda verde oliva(Na foto ao lado os instrutores usam a versáo azul calcinha. Preste atenção nos tipos que ensinam o povo daqui a dirigir!) mandou a gente sentar na moto e ligar ai ficamos dando voltas no pátio, durante o verão às 11 da manhã, com um calor de 45 graus por duas horas. Também não havia outro horário, a não ser que eu marcasse pra daí a dois meses. Daí passei a entender melhor o slogan da casa: Al Ahli Driving Center – The Best Never Rest…Never rest mesmo! Saindo do forno pra casa e depois para o aeroporto sem parar pra puxar 10 horas de expediente ninguém descansa...rsrsrs.

Continua na próxima postagem…



domingo, 7 de dezembro de 2008

Pegou fogo no meu Andar! Edição Extraordinária.

Oito horas da noite, estou eu na cozinha de cuecas (Porque macho que é macho lava a louça de cuecas!) quando toca o alarme de incêndio. Versa o manual de emergência que ao toque do alarme deve-se sair e confirmar o evento, mas após seis meses morando aqui e ouvindo este maldito alarme tocar todo dia na hora do almoço e da janta (as cozinhas têm detector de fumaça) eu não dei muita importância. Será que é porque o povo aqui cozinha bem? De repente ouço um grito histérico no corredor, aí pensei com meus botões: _O que é que esse povo está aprontando no corredor? Sabe como é ? Acomodações de funcionários de aeroporto, cada um de um país diferente, vivem longe das famílias, trabalham em horários confusos, acabam ficando todos doidos. Enfim, também não me alarmei. Pode pegar fogo no prédio aqui que ninguém nota. Espere. Fogo? Alguém aí falou em fogo? Pois foi o que escutei, e logo em seguida bateram na minha porta anunciando a evacuação do edifício. A resposta foi:_Espere, estou pondo as calças! Pus a bermuda peguei o capacete e saí.

Quando passei o corredor do andar já estava cheio de fumaça até a altura dos joelhos (do teto para baixo é claro) e os seguranças, que normalmente ficam no estacionamento, estava andando de um lado para o outro feito baratas tontas e batendo às portas dos outros moradores e pedindo para que saíssem. Uma senhorita com ar alucinado gritava e chorava com a mão na cabeça e outro rapaz com cara de estupefato olhava para ela e para o povo que ia passando rumo à escada de incêndio. Imaginei comigo:_Será que ela vai ficar aí até virar churrasco? Então sugeri com todo o tato e psicologia que pude reunir no momento, porém com firmeza: _Senhorita desça agora! Não funcionou. OK, plano B:_Desce já sua louca! Não preciso nem dizer que ela desceu correndo e gritando, mas desceu. La vou eu escada abaixo quando vi que o rapaz que estava com ela não havia descido. Voltei. Ao voltar perguntei o que ele estava fazendo e o energúmeno me disse que estava esperando o elevador. Quando o elevador abriu eu apertei o bloqueio de incêndio e parando a cabine e disse pra ele:_ Você não vai entrar ai não! Desce já! Descemos todos para o estacionamento em segurança.

No lado de fora do prédio já estavam os bombeiros, os paramédicos e a polícia de Dubai. Uma multidão de moradores da vizinhança Emirates Group já se acumulava para assistir ao show, evento este que já se tornou rotina, pois mês passado também pegou fogo no prédio ao lado. A palpitologia pululava, abobrinhas variadas sobre o incidente eram proferidas a exmo enquanto os bombeiros gritavam em árabe desenrolando as mangueiras fazendo pose no estilo do seriado 911 da TV americana. Somente os Duty Officers da DNATA não comentavam o ocorrido, inversamente falavam sobre horas extras e avaliação de desempenho com outros funcionários tentando recrutar pessoal para cobrir o enorme furo na escala deixado pelos colegas que demitiram-se para passar o natal em família. Vai ser workaholic assim lá na Índia!

Terminado o qüiproquó, comentou-se por fontes extra-oficiais que o incêndio foi causado por uma garota (Adivinha quem!) que deixou uma vela sobre a cama. Vai vendo o quilate da mão de obra que se contrata por aqui. Na hora desci e não pensei em nada, mas quando me dei conta que a carteira de motorista ficou no apartamento me deu uma tremenda angústia. Nem pensar em voltar, mas o porquê da angústia eu conto na próxima postagem. Aquela que eu contarei sobre o sufoco que é tirar licença para dirigir em Dubai.



sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Dia Nacional dos Emirados

Pois é brasileiros e brasileiras, o Quatro de Julho emirati também tem festa! Ontem dia 2 de Dezembro, um marco na história desta terra, foi comemorado o dia da unificação das sete tribos para formação dos Emirados Árabes Unidos sob a iniciativa do Sheik Zayed Bin Sultan Al Nahyan. Mas as festividades não param por aí. O calendário local segue até dia 11 de Dezembro e inclui entre shows, revoada de ultraleves, passeatas de barcopelo Creek (rio ao redor do quala cidade se desenvolveu), de carro e a pé lideradas pelo Sheik Mohamed em pessoa e pirotecnia, também a isenção de cobrança pelo estacionamento nas vias públicas por uma semana. No aeroporto a decoração com as bandeiras em branco preto vermelho e verde, cores dos Emirados Árabes Unidos, ficou muito bonita. Onde quer que você vá, terá de passar sob arcos feitos de balões das mesmas cores, ornamentados com fitas e plumas coloridas e fotos dos Sheiks.


Até a polícia de Dubai está em clima de festa. Aqui eles são conhecidos como super nacio- nalistas, cada um deles ostenta pelo menos uma foto do Sheik no verso do crachá ou em forma de bottom na lapela, agora então aproveitando a ocasião especial eles colocam ao redor do pescoço uma espécie de cachecol com as cores nacionais e as fotos dos Sheiks de Dubai e Abudabi nas pontas. Como o protocolo não permite que os policiais sejam fotografados eu não pude documentar, porém um deles foi designado para fazer às vezes de anfitrião no saguão do aeroporto e servir café árabe com tâmaras no lounge de embarque então pude flagrar este momento, posando para foto ao lado do oficial vestido na tradicional candura (roupa branca árabe).


A minha motoca também entrou na festa, como já é vermelha decorei com uma bandeirinha dos Emirados que combinou bem. Os emiratis adoram desfilar seus carros, na maioria SUV's (Sport Ultility Vehicles) ou aqueles trambolhos que circulam também la no Brasil que mal cabem nas ruas. A variedade de decoração é impressionante teve gente que pichou o próprio carro com tinta spray. Não estou falando de Fusquinha velho ou Chevette, o povo aqui picha Mitsubishi Pajero, Toyota Prado, Hummer, Land Hover e Mercedes. Fotos do Sheik é que não faltam.


O trânsito durante as festas foi motivo de polêmica. A colocação destas fotos até no pára-brisa dianteiro levou a polícia de Dubai a apreender em um mesmo dia 300 veículos que tinham a visibilidade do motorista comprometida pela decoração, placa ocultada, dirigiam perigosamente, realizavam carreatas não autorizadas obstruindo o tráfego. A notícia em inglês está no Gulf News. A legislação de tráfego aqui também prevê sistema de pontos na carteira e as multas para estas infrações variam de R$100,00 a R$ 1.000,00.

A postagem sobre a novela da carteira de motorista vai ficar pra próxima, novamente. Assim é possível informar mais detalhes para quem tem buscado neste site algumas dicas de sobrevivência nesta AMAZING! City.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Como é a vida em Dubai?

A campeã entre as perguntas que recebi tem sido esta ate agora, e confesso ser a mais difícil de responder. Quando alguém me questiona a respeito à resposta mais imediata é: Mais que vida? ("Iiii... pronto, o Fred andou lendo Nietsche." Não queridos leitores, faz anos que não leio Nietsche – Nem faço questão de voltar a ler.) A explicação é que Dubai tem uma cultura motorizada, avessa à cultura pedestre brasileira. Sem um veículo é difícil ter uma vida nesta cidade, principalmente trabalhando em turnos variáveis onde o planejamento da sua vida pessoal demanda uma flexibilidade que não é correspondida pelo serviço municipal de transportes.

A Road And Transports Authority ou RTA como é conhecida regula e administra os transportes públicos e privados nos Emirados. (Sem entrar no mérito da definição do que é publico ou o que é privado por aqui, o que constitui tema para uma nova postagem.) Como uma versão local do DETRAN ela é responsável pelos ônibus, linhas, pontos, planejamento de vias públicas, regulamentação de tráfego, licenciamento de empresas, veículos e a famigerada carteira de motorista.

Devido à expansão acelerada, Dubai enfrenta o desafio de prover serviços de qualidade nos transportes. Nos horários de pico, principalmente nas regiões centrais a escassez de taxis é evidente levando o cidadão esperar de uma a uma hora e meia por um táxi. Pegar um taxi na rua é quase impossível, logo que o táxi fica vago uma chamada entra e o cliente avulso é recusado à beira da calçada. Inúmeras vezes nos deparamos com a tradicional cena do taxista desembarcando passageiros e quando abrimos a porta pra falar com ele a resposta é que está atendendo a uma chamada.

Já a fila de espera nos call centers é de aproximadamente meia hora dependendo do horário que se liga. Nota-se também conduta irregular, penalizada com multa pela RTA, por parte dos motoristas que escolhem as chamadas e destinos de acordo com o lucro ou conveniência de voltarem para casa.

A estratégia adotada por aqui é: 1- Entre no taxi, sente-se e feche a porta 2- Declare o destino somente com o taxi em movimento, se o taxista perguntar olhe pra ele e diga "_Go!" 3-Se o taxista reclamar diga que vai chamar a polícia. (Vixe eles morrem de medo!). Desta maneira consegue-se circular em Dubai. Creio que isto ocorre devido à influência cultural de certas regiões do Sul da Ásia, onde a hierarquia e a servidão são parte dos costumes. É impressionante a associação de respeito com poder. Sad but true, como diria James Hetfield. Se não falar grosso não tem respeito por aqui.

O ponto positivo é que fora dos horários de pico isso é menos suscetível de acontecer, muito ao contrário, os condutores imploram pela corrida na madrugada. Outros detalhes a favor do sistema de táxis local são o preço muito mais barato que o Brasil (22 reais para o aeroporto- mais 10 reais se sair do aeroporto), a qualidade material dos veículos Toyota Corolla ou Honda Civic 2007 a 2008, a limpeza apresentação dos veículos com motoristas uniformizados e serviços especiais como o pink taxi que é para senhoras e senhoritas e dirigido por mulheres.

Por outro lado, se você pode arcar somente com o custo do coletivo então se prepare. Este mesmo fator cultural mencionado antes e observado também nos passageiros do Sul da Ásia influencia o comportamento da população que utiliza e que opera os coletivos. São trabalhadores social e economicamente carentes na sua maioria que utilizam o serviço para ir trabalhar nos horários de pico ou passear e resolver questões pessoais fora destes. A regra por aqui diz que ônibus não pode sair lotado e é cumprida a risca. No momento que o coletivo encosta na calçada os passageiros aglomeram-se junto à porta na expectativa de conseguir um lugar. Nos horários de pico a disputa fica mais acirrada mas sem os sopapos que normalmente ocorrem no Brasil, embora a o contato físico seja inevitável à medida que os trabalhadores apertam-se uns aos outros junto à porta.

Permitam-me uma pequena observação. Nota-se uma incrível semelhança no momento do embarque destes mesmos passageiros para seus países de origem. Fazemos um anúncio no portão, todos se levantam num estrondo único e correm (mas correm mesmo!) para a porta de embarque. Lembro-me de quando era criança e lá no parque da Aclimação e dava comida aos peixes, logo que caía a primeira migalha eles avançavam sobre o pão. Identicamente acontece no check-in. Acreditem-me! Não há fila sem grito! Os viajantes amontoam suas malas de mão junto a um canto do balcão mesmo sem conhecerem-se e aglomeram-se sobre o balcão e empurrando os carrinhos de bagagem uns contra os outros vão se espalhando lateralmente. No momento em que chegamos para abrir o vôo a bagunça (ou organização peculiar a este tipo de passageiro) já está formada. Para organizar só no grito. Liiiiiiine! (leia-se Láine =fila em inglês).

A freqüência dos ônibus é irregular, embora pela regra seja planejada. Atrasos de até meia hora são constantes e muitas vezes nestes casos o ônibus atrasado não para, pois já cumpriu lotação. Apesar da propaganda ostensiva da RTA sobre os pontos de ônibus com ar condicionado, estes são poucos geralmente nas regiões centrais e nas áreas mais ricas da cidade. Nem todas as localidades são servidas com transporte coletivo e também são poucas que têm calçadas para circulação de pedestres. Os fatores positivos são os ônibus aqui são novinhos em folha, sanfonados, grandes e quando lotados não são lata de sardinha. O ar condicionado dos coletivos também é excelente.

As vias e estradas deste emirado são largas espaçosas. Encontram-se aqui highways de até oito pistas de cada lado, estas são como um carpete até o destino final. A velocidade limite de muitas é 120 km por hora, um paraíso para os expatriados de origem européia e para os emiratis. Muitos dirigem seus Porshes e Ferraris a velocidades alucinantes acima dos 200 km por hora, resultando em acidentes tolos devido às imprudências. Live fast, die Young .

Há também radares por todos os lados embora o policiamento de trânsito se faça presente somente no momento de acidentes, ou em alguns pontos com a caneta e bloco na mão. A distribuição do tráfego já começa a evidenciar a necessidade de uma redistribuição. Existe limitação de acesso entre o tráfego local e as highways criando gargalos de tráfego nos pontos de acesso a estas vias expressas. Por aqui muitas vezes pode-se ver o lugar para onde está indo, mas não há via direta, tem-se que dar muitas voltas até descobrir como chegar até lá.

Os canteiros de obras públicas e privadas são outro fator que complica o trafego de Dubai, muitas reduções de pista, areia e cascalho no asfalto e sinalização improvisada incorretamente pelos próprios trabalhadores das construções (aqueles mesmos da aglomeração citada acima) colaboram na lentidão da circulação dos veículos.

Quanto à carteira de motorista (Passei no exame ontem!) é um processo lento, complicado que será o assunto da próxima postagem. Reservei as mais cômicas observações sobre a cultura administrativa do departamento de trânsito para a próxima ocasião.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Mês do Ramadã

Como prometido aqui vão as impressões sobre o Ramadan.

Antes de tudo, permitam-me corrigir as informações da postagem anterior.Em Dubai nada fecha no período do nascer ao pôr do sol, o que fecham são alguns restaurantes e as praças de alimentação dos shoppings, embora a maioria permaneça aberta e receba encomendas para viajem. Comer em publico beber qualquer coisa inclusive água e fumar é proibido.Os seguranças do shopping vigiam e pedem que você leve o conteúdo para a sua casa e consuma lá. Todos respeitam sem exceções, mas notei que alguns árabes muçulmanos fumam dentro de seus carros quando em tese ninguém está vendo.

A razão do jejum no Ramadã é solidarizar com os necessitados e desenvolver a autodisciplina priorizando as coisas do espírito sobre as coisas do corpo. O fasting, como é chamado em inglês aqui, ocorre do nascer ao pôr do sol e é quebrado com um desjejum chamado Iftar que corresponde à ceia cristã do Natal, só que todos os dias, durante o ramadã, no horário astronômico do pôr do sol. A festa é alegre e os funcionários aqui do aeroporto reúnem-se nas mesas de Iftar da praça de alimentação após a oração do por do sol (Salatul Magrib). O prato é comida árabe principalmente. Falarei da gastronomia em outra ocasião.

Neste mês pede-se moderar as atitudes em frente aos muçulmanos e não comer e beber em frente aos colegas que estão jejuando aqui na empresa. Estes cumprem um expediente reduzido de 6 horas e recebem hora extra quando se estendem em seus deveres. Fui convidado para a Iftar inúmeras vezes o que é uma honra para não muçulmanos, porém não posso aceitar por questões éticas. Sou registrado como cristão dentro da empresa, e preferi evitar comentários sobre direitos trabalhistas (suspeitas sobre utilizar a religião como pretexto para receber hora-extra).

O movimento aqui no aeroporto diminuiu muito no período. Somente vôos para Jeddah, próxima a Mecca, que costumam estar cheios devido à peregrinação neste período. Diz o Al Quram (Alcorão- essa tradução em português não fez sentido pra mim quando cheguei) que as peregrinações à Mecca no período do Ramadã multiplicam as bênçãos dos peregrinos. Estas viagens são chamadas de Umra e os viajantes vestem-se somente com panos brancos em volta de si.

Em Jeddah (Arábia Saudita) há um esquema aeroportuário montado onde os passageiros do Umra são desembarcados em um terminal exclusivo e todas as bagagens que seguem para este destino tem uma etiqueta especial escrito Umra. No retorno os fieis trazem galões de Zam-zam, a água da fonte que Abraão fez jorrar do deserto, que dizem ser abençoada. Normalmente trazem como excesso de bagagem a uma média de 25reais por kg/l de água. Meus colegas do departamento de bagagem contam várias histórias de brigas no desembarque por causa da troca de galões ou extravio da Zam-zam. O que normalmente ocorre com passageiros que chegam atrasados nos vôos.

O cumprimento durante o Ramadã é Ramadan Kareem ou Ramadan Mubarak que corresponde ao Feliz Natal. A vantagem dos muçulmanos é que eles têm 30 ceias de "Natal" por ano e nós só temos uma. Lembrei-me dos 5 quilos que ganhei no último Natal. Nossa! Ainda bem que não fui! 5 x 30 são 150 quilos!