quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Recebendo 2009 No Dubai International Airport


Queridos leitores, desculpem-me pelo atraso nas postagens. O ritmo alucinante do fim de ano e os preparativos para as férias me fizeram deixar o blog de lado um momento, mas agora retomo de onde parei.

Logo ao despertar, na véspera do ano novo, abri a página do Gulf News na internet e deparei-me com a notícia incomum: "Residentes de Dubai acolhem a decisão de receber o ano novo com sobriedade". Devido aos ataques em Gaza sua alteza o Shaikh Mohammad Bin Rashid Al Maktoum ordenou o cancelamento de todas as formas de celebração do ano novo em solidariedade aos palestinos.

Mas nem todos os residentes acolheram tão bem assim esta decisão. De imediato liam-se comentários de nossos compatriotas tupiniquins nas comunidades do Orkut em protesto contra tal medida, uma vez que foi proibido o come, bebe e sei lá mais o quê de fim de ano como é de costume em nossa nação. Essa notícia foi dada também em primeira mão no site da Karina o Ah! Libanesa, onde deixei um comentário informal (leia-se esculhambada) que traduz a seguinte idéia:

Muita gente ficou ressentida por perder a sua reserva no hotel de luxo e abdicar dos excessos desta época do ano, mas se formos refletir a legitimidade do decreto: Não é o dia primeiro de Janeiro mundialmente conhecido como Dia da Fraternidade Universal? Existe solidariedade maior do que o respeito devido àqueles que passam agora por momentos de crise? A maioria de nós imagina ser o primeiro dia do ano um festival de excessos distanciando-se do real significado da data: fraternidade.

Como de costume na vida do aeroportuário, feriado é dia de trabalho. Quarta feira, 31 de Dezembro de 2009, o dia mais mole da minha escala semanal. Expediente de seis horas somente, das 22:00 às 04:00 no vôo para Atenas da Olimpic Airways, companhia aérea estatal grega.

O pequeno Boeing 737-400 com seus 16 assentos na business class e 102 na econômica estava tranqüilo, somente metade da capacidade reservada. Foram-me designados somente dois funcionários no check-in e um na área de conexão interna dos portões conhecida como transfer desk, que acolhe os passageiros em conexão internacional que não saem do aeroporto durante o trânsito. Havia muitos passageiros com conexões de Atenas para JFK New York, por isso recomendei à equipe que tomasse cuidado adicional na verificação e inserção de dados de passaporte como requerido pelo governo americano. As multas da FAA (Federal Aviation Association) são da ordem de US$ 2.000,00 por passageiro que nos esquecemos de inserir no sistema de imigração americano antes da partida dos vôos.

Logo na entrada do briefing room meu celular tocou. Atendi e recebi os votos de feliz ano novo da Karina e iniciei a noite mais alegre. Embora este não seja o primeiro nem o último ano novo nos aeroportos do mundo a gente sempre fica com a cabeça nos amigos e parentes nesta data.

Segui para o escritório da Olimpic onde um senhor de um metro e noventa com uma barba de quase meio metro que deixa até Moisés com inveja me recebeu (Se ele autorizar eu reedito a postagem com a foto dele). Alegre como sempre o Sr. Firoz indiano de Bombay iniciou o briefing do vôo. Lembrou-me dos passageiros com conexão para Madrid e dos incidentes que ocorrem com alguns devido a excesso de peso na bagagem de mão e pediu-me para ficar alerta.

Uma das vezes que fiz este vôo uma senhora tentou embarcar com quatro bagagens de mão pesando cada uma sessenta quilos, lotadas de telefones celulares. Tivemos que impedir seu embarque. Essa prática viola as normas de segurança de vôo pois as bagagens pesadas podem abrir os compartimentos e cair sobre os passageiros causando ferimentos. Em 1998 a bordo de um vôo da TWA uma passageira faleceu porque uma bagagem pesada caiu sobre sua cabeça.

O chek-in abriu no primeiro minuto de 2009 uma vez que o OA346 partia às 03:00. Iniciamos com um feliz ano novo aos passageiros e tudo ocorreu conforme previsto. No momento do fechamento apareceu a senhora das malas, aquela que negamos o embarque da outra vez. Como era de se esperar trazia mais bagagem do que o permitido e quando me viu retornou com as bagagens para fora do aeroporto onde outra pessoa as levou embora. Estratégia frustrada, ela bateu em retirada para a segurança de todos e depois embarcou sem bagagens de mão.

Mais uma vez, como no Natal, foi anunciada neblina após as 03:00 e meu vôo partia às 03:00. Conseguimos reunir os passageiros com boa antecedência e o OA346 partiu com vinte minutos de antecedência.

Na estrada as 04:00 da manhã a neblina estava impossível. Embaçava meu capacete e meus óculos obrigando-me a reduzir a velocidade e sinalizar o alerta. Cheguei cansado mas tranqüilo, com a sensação de dever cumprido no primeiro dia deste ano de 2009.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Natal no Aeroporto Internacional de Dubai

Feliz Natal a todos! Que a paz que Jesus nos deixou como Seu exemplo contagie o n osso ambiente de convívio para que num futuro próximo possamos desfrutar dos benefícios da fraternidade na Terra.


Este é mais um dos vários natais já passados nos aeroportos do mundo afora. Ossos do ofício! Bem dizia mamãe:_Vá fazer direito! Preste um concurso público! Tudo bem, prestei pra Controlador de Vôo, passei e o Lula apesar do apagão aéreo, nunca chamou. Mas confesso que a carreira pública não me atrai.

O noite começou bem, cheguei ao aeroporto adiantado na minha motocicleta, com a rotineira indumentária de motociclista: Jaqueta de couro e capacete (de outro modo acabo carregando o deserto de Dubai dentro dos bolsos do meu blazer). Desci, troquei-me e fui bater o ponto, pura rotina.

Ao chegar a notícia prevista, vinda da Jumana minha Duty Officer da Síria:_Mr Farid (esse sou eu, pros árabes) os supervisores cristãos ligaram informando que estão doentes e não virão, preciso da sua ajuda.

Lá vamos nós, Jet Airways pra Delhi, load tranqüilo mas o vôo é um porre. O perfil do cliente é dos que vê pêlo em ovo. Muito exigente (ok), pouco informado e mal criado na maioria (aff!). Típico "noveau riche" das nossas culturas terceiro-mundistas. Ocorreu sem maiores percalços. Durante o check-in chamou-me a atenção um médico que pediu assistência de cadeira de rodas para sua mãe já idosa. Doutor Singh. Ainda não entendo se há uma razão para todos os indianos que conheci que são naturais de Punjab chamarem-se Singh, só sei que são identificados pelo turbante tipo Indiana Jones no Templo da Perdição. Ficou muito contente pela atenção dada ao seu familiar, marcou -me pelo seu sorriso franco.


Um deportado nepalês, cash inad (termo dado aos que são recusados por não ter fundos suficientes para entrar no país) embarcou por último conforme o procedimento, acompanhado de cinco deportados vindos do Detention Centre de Dubai. Esses ou são imigrantes ilegais ou estão sendo deportados após o cumprimento de pena. O 737-800 chegou atrasado com 90% da capacidade prevista, porém nosso time despachou o vôo com 15 minutos de antecedência do horário regular, partindo adiantado. (Viu Gol! Rsrs).

Como de costume nas situações de falta de funcionários após este já tinha outro me esperando. Mas como a alocação foi muito apertada, não foi possível chegar ao check-in a tempo para o próximo vôo da Azerbaijan Airlines para Baku, então fui encaminhado para o vôo da Daallo Airlines para o Djibuti na África, que recebe na maioria passageiros para o Djibuti, Somália, Etiópia e Eritréia.

Fui até o escritório da empresa para receber o brieffing da gerência, enquanto isto notei que o corredor dos escritórios tinha um toque natalino. Vi guirlandas nos escritórios da Srilankan e da Cathay Pacific (fotos ao lado).

Aproveitei e tirei uma foto com o pessoal da Srilankan (primeira foto), que antes tinha a Emirates como acionista. O pessoal desta empresa é muito simpático e a equipe tem um serviço excelente, um dos melhores do aeroporto.

A gerente Sherine é uma simpatia e ela mesma
decorou o escritório e montou a árvore de natal. Esse foi o único escritório que eu encontrei que estava em clima natalino, pois entre os funcionários há budistas e cristãos. Os budistas no Srilanka também comemoram o natal, para entrar no clima da festa somente, sem intenção religiosa.

O escritório da Daallo é uma coisa curiosa, na porta há um enorme banner com uma moça em trajes típicos djibutianos segurando um carneirinho na mão, tão bonitinho. Diz-se aqui no aeroporto que ela segura o carneiro porque está pronta para embarcar, aguardando na fila do check-in, hahaha, que maldade! Mas quem já viu embarque da Daallo sabe por quê. Foi neste vôo que descobri que o computador só suporta 999 quilos de bagagem e que as balanças só toleram 400 quilos.
Brieffing tomado, lá vamos nós. A fila não estava grande, o vôo ainda tinha alguns assentos disponíveis e partia às três horas da manhã.


Meia noite ligou-me a Ana Karina, minha amiga famosa do blog Ah! Libanesa. Fiquei feliz de receber seus votos de feliz natal. Normalmente não atendo ao celular durante a operação nem autorizo minha equipe a fazê-lo, mas natal é natal, alguns dos funcionários filipinos eram cristãos, também tinham família no exterior e estavam heroicamente dedicando seu feriado natalino aos passageiros de um vôo que sabidamente não se leva bagagens com menos de trezentos quilos (foto Abaixo: Pulat funcionário Uzbeque e as bagagens do passageiro Daallo).

Ninguém merece né! Vamos dar um desconto!


Logo em seguida ligou-me a mãe da Clarissa, tripulante da Emirates trazendo os votos da minha amiga Sale de Caxias do Sul também.

Isto alegrou a minha noite natalina principalmente pelo fato de alguém lembrar que nós abrimos mão de nossas noites de natal para que os passageiros possam estar com suas famílias.



A maior preocupação desse vôo sempre é o carregamento, pois mesmo com assentos disponíveis a bagagem é sempre maior que o aparelho comporta e acaba sendo enviado em vôos posteriores. O pequeno Boeing 727-200, voando desde a década de sessenta, tem um porão limitado e para carregá-lo o pessoal da rampa tem que entrar lá dentro pois só dispõe de uma porta na traseira da aeronave.


O mesmo se dá quando se precisa remover as bagagens dos passageiros que não se apresentam na última hora.


Excepcionalmente hoje a meteorologia previu uma neblina densa com possível fechamento da pista depois das três horas. E rotineiramente o Daallo nunca sai no horário pois não é possível desembarcar as toneladas de malas dos passageiros que chegam depois do fechamento do portão à tempo de partir no horário.Mais fácil então é esperar que o mesmo se apresente, ai então o folgado acaba atrasando o vôo inteiro.

De qualquer forma mala sem passageiro não sai no meu vôo de jeito algum! Versa a segurança da aviação que bagagem desacompanhada é bomba à bordo.


O pessoal desta parte da África não tem o costume de usar relógio mesmo. Já estava vendo o tamanho do desafio, botar esta turma no vôo e fazê-lo partir adiantado então pedi aos funcionários que avisassem a todos que o vôo sairia antes do horário.


O embarque começou duas horas e duas e trinta vejam só, todos à bordo! E a aeronave estava na remota! (posição de estacionamento que demanda levar os passageiros de ônibus).


Terminado o carregamento e fechadas as portas a aeronave dirigiu-se para a pista às duas e cinquenta e cinco e graças a Deus decolou! Às três em ponto desceu a neblina e o Dubai International fechou até pra pernilongo. Não dava pra ver um palmo na frente do nariz.


Voltando ao fim da operação, com a sensação de deve cumprido gravei o breve vídeo abaixo na minha tosca câmera do celular.

Quem é que disse que não existe milagre no natal, hahaha! Quem conhece este vôo que o diga!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Liberdade de Dirigir (A Saga da Carteira de Motorista Parte I)




Como prometido, contarei a aventura de se tirar carteira de motorista nos UAE.

Tudo começou no dia em que um colega brasileiro, menos esclarecido resolveu arrumar briga com o transporte da empresa. O iluminado cidadão, se achando um europeu de estirpe superior, discutiu com o motorista da van que nos transporta para o trabalho. Como de praxe nos barraqueiros da nossa nacionalidade, o patrício estava errado. Mesmo assim ele ofendeu o motorista, e etilizado o ameaçou. O pobre "golimar" (apelido carinhoso que nós brasucas atribuímos aos nativos do sul da Ásia) abaixou a orelha e obedeceu, mas estava o colega enganado se isto ficaria assim. O corporativismo golimar aqui pega pesado. Eles pegaram tamanho ranço dos funcionários do Grupo Emirates, e principalmente dos brasileiros (Porque aqui tudo se credita à nacionalidade do cidadão, "_Ah! Tem joanete? Talvez porque seja Marroquino!". "_Crise de soluço? Só podia ser chinês!") que começaram a retaliar. No outro dia viam-se vários funcionários correndo atrás da van enquanto a mesma fechava as portas antes da hora e saia acelerando à velocidade do som.

Eu mesmo corri umas poucas vezes, e sem alternativa, apelei pro serviço clandestino. Sim caros leitores, Dubai também tem lotação. As minhas despesas acabaram encarecendo e então resolvi partir pro "independência ou morte" mais cedo do que o planejado, e para minha sorte porque nem sabia o que estava por vir.

Lá vou eu para o balcão do shopping, onde vários driving centers competem pelos novos alunos, levantar informações sobre a conversão da carteira de motorista brasileira para o documento local. Descobri que não é possível, somente cidadãos de poucos países podem fazê-lo. Como era de se esperar, USA, Inglaterra e outros desta lista:

  • Australia
  • Austria
  • Bahrain
  • Belgium
  • Canada*
  • Cyprus*
  • Czech Republic*
  • Denmark
  • Finland
  • France
  • Germany
  • Greece*
  • Iceland
  • Ireland
  • Italy
  • Japan*
  • South Korea*
  • Kuwait
  • Luxembourg
  • Netherlands
  • New Zealand
  • Norway
  • Oman
  • Poland*
  • Portugal*
  • Qatar
  • Saudi Arabia
  • Singapore
  • Slovakia*
  • South Africa
  • Spain
  • Sweden
  • Switzerland
  • Turkey*
  • United Kingdom
  • United States

Nota: Se tiver carteira de motorista de um destes países, porém não tiver passaporte de lá você não terá a carteira reconhecida. O que importa não é a sua habilidade de dirigir e sim o status que a sua nacionalidade lhe atribui. Confira no link http://www.dubaifaqs.com/driving-licence-exchange-UAE.php. Se segundo o DataSUS o número de acidentes de trânsito fatais no Brasil em 2005 foi de 35.100 comparado aos 43.442 dos Estados Unidos no mesmo ano. Então porque eu reles terceiro mundista devo passar por todo este sufoco enquanto o Tio Sam bota uma graninha na mão dos habibs e sai cantando os pneus do seu Corvette?

Optei pela motocicleta por várias razões, uma delas é o número menor de aulas (16 contra 40 dos automóveis) então descobri que as aulas de moto ao em um pátio especial e que os driving centers só tem em suas matrizes. Isto me obrigou a optar por um driving center perto de casa. Este ai da foto. A questão é que eu vivo em um distrito industrial onde além dos armazéns e indústrias ficam os labour camps e company acomodations (os primeiros para trabalhadores da indústria e construção, os segundos para os do turismo aviação e serviços). Onde é que eu fui amarrar meu camelo!

Oito horas da manhã e mal abriu o estabelecimento a fila já ta enorme, aquela galera vestindo sharwanis (túnica típica do Paquistão) ou turbantes e (desculpem-me se parecer preconceito, mas o meu olfato não mente) uma tremenda catinga. Olha, depois desta fila eu pago pra entrar nas da prefeitura de SP ou do SUS sem reclamar. Dizem que a memória olfativa é a mais marcante, pois a minha remeteu-me à única fila com semelhante odor que eu já presenciei, a fila do sopão FEESP no centro de São Paulo. Ao abrirem as portas retirei uma senha e sentei-me. Número 180, aí pensei "_O teste de paciência vai ser dos grandes". Ao ser chamado após duas horas de espera entreguei passaporte, cópia do visto, identidade funcional e me matriculei. "_É só isso?" Perguntei. Uma jovem senhorita em uma abaia preta me respondeu que ainda não e pediu-me para tirar uma nova senha para o caixa. Lá vou eu de novo apertar o botãozinho. Número 125 desta vez, para dois guichês e o aroma apertando. Mais uma hora pra pagar e nova pergunta: "_É só isso?" "_Não" Respondeu-me um homem de turbante. Faltava ainda marcar as aulas. "_Tem fila? Perguntei. "_Não" Respondeu-me, e logo completou, "_O próximoo!"La vou eu feliz achando que poderia voltar pra casa quando constatei que não tinha fila mesmo. Na verdade era uma aglomeração, melhor se fosse fila. Saí de lá com as 16 aulas marcadas às 4 da tarde. Pra pegar o expediente aeroportuário as 6. Ninguém merece!

Aula numero 1. O instrutor, com uma farda verde oliva(Na foto ao lado os instrutores usam a versáo azul calcinha. Preste atenção nos tipos que ensinam o povo daqui a dirigir!) mandou a gente sentar na moto e ligar ai ficamos dando voltas no pátio, durante o verão às 11 da manhã, com um calor de 45 graus por duas horas. Também não havia outro horário, a não ser que eu marcasse pra daí a dois meses. Daí passei a entender melhor o slogan da casa: Al Ahli Driving Center – The Best Never Rest…Never rest mesmo! Saindo do forno pra casa e depois para o aeroporto sem parar pra puxar 10 horas de expediente ninguém descansa...rsrsrs.

Continua na próxima postagem…



domingo, 7 de dezembro de 2008

Pegou fogo no meu Andar! Edição Extraordinária.

Oito horas da noite, estou eu na cozinha de cuecas (Porque macho que é macho lava a louça de cuecas!) quando toca o alarme de incêndio. Versa o manual de emergência que ao toque do alarme deve-se sair e confirmar o evento, mas após seis meses morando aqui e ouvindo este maldito alarme tocar todo dia na hora do almoço e da janta (as cozinhas têm detector de fumaça) eu não dei muita importância. Será que é porque o povo aqui cozinha bem? De repente ouço um grito histérico no corredor, aí pensei com meus botões: _O que é que esse povo está aprontando no corredor? Sabe como é ? Acomodações de funcionários de aeroporto, cada um de um país diferente, vivem longe das famílias, trabalham em horários confusos, acabam ficando todos doidos. Enfim, também não me alarmei. Pode pegar fogo no prédio aqui que ninguém nota. Espere. Fogo? Alguém aí falou em fogo? Pois foi o que escutei, e logo em seguida bateram na minha porta anunciando a evacuação do edifício. A resposta foi:_Espere, estou pondo as calças! Pus a bermuda peguei o capacete e saí.

Quando passei o corredor do andar já estava cheio de fumaça até a altura dos joelhos (do teto para baixo é claro) e os seguranças, que normalmente ficam no estacionamento, estava andando de um lado para o outro feito baratas tontas e batendo às portas dos outros moradores e pedindo para que saíssem. Uma senhorita com ar alucinado gritava e chorava com a mão na cabeça e outro rapaz com cara de estupefato olhava para ela e para o povo que ia passando rumo à escada de incêndio. Imaginei comigo:_Será que ela vai ficar aí até virar churrasco? Então sugeri com todo o tato e psicologia que pude reunir no momento, porém com firmeza: _Senhorita desça agora! Não funcionou. OK, plano B:_Desce já sua louca! Não preciso nem dizer que ela desceu correndo e gritando, mas desceu. La vou eu escada abaixo quando vi que o rapaz que estava com ela não havia descido. Voltei. Ao voltar perguntei o que ele estava fazendo e o energúmeno me disse que estava esperando o elevador. Quando o elevador abriu eu apertei o bloqueio de incêndio e parando a cabine e disse pra ele:_ Você não vai entrar ai não! Desce já! Descemos todos para o estacionamento em segurança.

No lado de fora do prédio já estavam os bombeiros, os paramédicos e a polícia de Dubai. Uma multidão de moradores da vizinhança Emirates Group já se acumulava para assistir ao show, evento este que já se tornou rotina, pois mês passado também pegou fogo no prédio ao lado. A palpitologia pululava, abobrinhas variadas sobre o incidente eram proferidas a exmo enquanto os bombeiros gritavam em árabe desenrolando as mangueiras fazendo pose no estilo do seriado 911 da TV americana. Somente os Duty Officers da DNATA não comentavam o ocorrido, inversamente falavam sobre horas extras e avaliação de desempenho com outros funcionários tentando recrutar pessoal para cobrir o enorme furo na escala deixado pelos colegas que demitiram-se para passar o natal em família. Vai ser workaholic assim lá na Índia!

Terminado o qüiproquó, comentou-se por fontes extra-oficiais que o incêndio foi causado por uma garota (Adivinha quem!) que deixou uma vela sobre a cama. Vai vendo o quilate da mão de obra que se contrata por aqui. Na hora desci e não pensei em nada, mas quando me dei conta que a carteira de motorista ficou no apartamento me deu uma tremenda angústia. Nem pensar em voltar, mas o porquê da angústia eu conto na próxima postagem. Aquela que eu contarei sobre o sufoco que é tirar licença para dirigir em Dubai.